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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Precisamos de Filosofia?

Certa vez, um deputado afirmou: " O aborto deve ser legalizado porque já é praticado". À primeira vista, pensamento verdadeiro; à segunda, uma falácia. Falácia é um pensamento falso: não é porque algo é praticado que pode ser legalizado. Fosse assim, a corrupção também poderia ser legalizada. Eis aí um exemplo do embate entre senso comum e filosofia.
Digamos que o senso comum fala a língua do deputado aí do exemplo, ao passo que a filosofia faz análise lógica do discurso, procurando, nele, aquilo que contraria as regras básicas do pensar correto. A lógica qualifica o raciocínio são.
O senso comum pode ser entendido como o saber da vida o qual vamos adquirindo espontaneamente, à medida que vamos vivendo. Ele pode ter erros tanto quanto a ciência, a filosofia, as artes, o mito, a tecnologia e a teologia, pois, igual a essas outras formas de conhecimento, ele é um produto humano, falível, passível de equívocos e enganos, impropriedades e incorreções.
De igual modo, não é porque nunca "provaram o contrário" que algo é verdadeiro (o fato de a infinitude do universo não ter sido provada não garante que o universo é finito). E não é porque um pensamento é atribuído a uma autoridade que esse pensamento é, apenas por isso, certo, verdadeiro e seguro.
É possível perceber a diferença entre tal senso comum e filosofia? O saber filosófico não aceita apressadamente conclusões tiradas após "exame de superfície" das coisas, fenômenos, acontecimentos, pessoas e relações. A filosofia busca a razão de ser de tudo pela raiz, o significado básico de tudo. O senso comum se contenta com afirmações do tipo que assegura que "manga com leite faz mal".
O que faz mal é a não alfabetização em filosofia. Ela submete o saber da vida ao crivo da razão crítica, fazendo-nos ir além do espontaneísmo, que não dá conta de causas e consequências, e do subjetivismo, que não explica os porquês do nosso dia a dia. É por essas e outras que precisamos de filosofia.

Um comentário :

  1. Olá Natália, como vai?
    Quero parabeniza-la por tão belo texto, escrito como um poema, não pela subjetividade, pois foi escrito de uma forma lógica e filosófica, mas pela escrita tão envolvente e inteligente.
    É importante repensarmos muitas vezes nossas ações que na maioria das vezes está estritamente ligada ao senso comum.
    Gostei muito do seu artigo, meus parabéns.

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